Conversa entre ilhéus

Um dia tive o privilégio de escutar o diálogo entre dois ilhéus através de obsoleto e velho sistema de comunicações, deixado acidentalmente pelo exercito português, aquando da respectiva permanência, tendo aberto as portas ao mundo da ilha grande que fica em frente referidos dois ilhéus.

Nossa Senhora da Conceição para São José: Estás roto e esfarrapado coberto de pedras e ninguém te liga.

– São José para Nossa Senhora da Conceição: eu sei minha senhora que és mimada com ouro e diamantes, eu sei que recebes avultadas verbas dos 500 milhões de europeus! Pois como sabes és a padroeira dos portugueses e daquele povo que vive na ilha grande, mas olha o tempo vai dizer que o ouro que tens e as verbas que recebes são de dinheiro sujo.

Até mudaste de nome já foste tanta coisa na vida e não passas de um molhe de nomes. Ambos tivemos diversas identidades. Já te chamaram forte do ilhéu e é assim que és conhecida pelo teu valor histórico. Já foste ilhéu do forte, já foste conhecida por fortaleza do ilhéu até na altura em que o porto desta cidade terminava a teus pés. Nessa época adoptaram a designação que também eu tive antes de ilhéu da pontinha. O povo daquela ilha mandou erguer com muito esforço e suor uma capela dignificando o teu lindo nome. Esse povo que te amava e que te consagrou de rainha de Portugal, enquanto eu não passava de um qualquer santo, como o pai de cada um de nós (São José – Padroeiro dos Josés), que à semelhança de qualquer bom pai, parecendo despercebido, está sempre preocupado e atento comos seus filhos.

Foste muito vaidosa e imponente quando te exibias. Vê lá que me despiram para te vestir, amputaram-me para chegarem a ti. E eu aguentei-me. O que eu sofri aos ventos e intempéries! As rezas e lamúrias que escutei sem o meu manto existisse para atenuar a dor e o sofrimento.

Mais grave ainda foi certo dia ter andado de boca em boca. Fui colocado à venda em hasta pública, tal qual um farrapo ou uma pedra bruta qualquer, para te alimentarem. Para te engrandecerem.

Com a quantia apurada embelezaram-te, mas repara na particularidade da venda. O homem com uma visão imensa do mundo, temendo as aves de rapina à distância, bem como gente que não tem presente determinados valores, teve a hombridade de ao proceder à venda, conforme as escrituras da época, ressalvar o processo com uma Carta Régia. Sabes, pouco tempo depois foi morto. Foi assassinado por aqueles que te veneram. Talvez porque , entre outros motivos, ao alienar-me, deixou bem claro que quem me adquiriu detinha toda a posse e domínio sobre mim. Tudo para te fazer brilhar e envaidecer pejada de nobres pedras, dando origem a uma gloriosa Rainha.

E eu, amputado lá tive de seguir o meu caminho. mas não se sabe de que é preciso ter derramar muitas lágrimas para aguentar o que passas e deve ser com essas lágrimas que alimentas parte do povo da ilha grande.

Jamais saberá o que sinto e as lágrimas que derramei. São muitas e temo que sejam o alimento de muita da gente dessa ilha que vislumbras a teus pés. Ai se esse teu manto falasse, o que seria de mim.

Eu tive a honra e o privilégio de ser a primeiro habitação, até hoje reconhecida oficialmente no atlântico. Também fui apelidado de diversos maneiras: ilhéu Diogo (nome do Filho de Cristóvão Cólon), ilhéu da pontinha bateria da pontinha, e ilhéu da Pontinha, pois a primeira ponta ou o primeiro molhe de rocha que saiu da ilha grande para cá passou pela minha gruta ou a meus pés.

Fui desprezado de tal maneira que os estrangeiros me apelidaram de Loo Rocks.

Pelo facto da natureza me ter criado mais pequeno que tu, fui mesmo eu que de forma acolhedora abriguei os primeiros navegadores após longa viagem desde a ponta de Sagres. Posso gabar-me de ter dado guarida nas minhas reentrâncias confrindo segurança e conforto, sem que alguém tenha aí falecido. Está escrito na memória fo nobre povo que aí vivia. Antes de entrarem naquele monte que parecia meter medo, vive agora muito povo. Alguns numa enorme felicidade e outros nem por isso.

Contudo, apesar de mais pequeno o povo serviu-se de mim porque dei origem ao primeiro porto do atlântico. Mais tarde instalaram-me o primeiro guindaste a vapor para gáudio de todos. Fui cárcere, Alfândega. Capela onde consolei demasiadas almas e afastei maus espíritos. De Alfândega a taberna matei a sede e fome a todos quanto lá entraram. Como hospital, servi de espaço para turistas em quarentena.

Visitado por piratas e corsários sempre que tomavam de assalto a ilha em frente a nós. Certo dia ergueram uma muralha deixando-nos sós e abandonados. Não devias ter acreditado nessa gente. Assistimos à ocupação dessa mesma ilha pelas mais variadas legiões e elas aqui ficaram. Por cá pernoitaram, dominando os defensores, os seus adversários. E tu, por seres maior nada pudeste fazer. Rendida e isolada mantivestete só e inundada com lágrimas salgadas.

Só no século XIX conseguiu aquele povo chegar aos teus pés, sem ter de navegar pelas águas que nos separam. Para isso tens de aceitar a verdade. Tudo com sacrifício da minha alma.

Permaneci em estado vegetativo respirando bafos e ouvindo os teus gemidos de prazer. Eufórica, recordo-me das enumeras farras com que deliciaste muitos dos que acabaram por te atraiçoar.

Não tenho de ti ódio. Não és a culpada. Mas é importante que saibas que esse povo te atraiçoou. Enquanto hoje bebes num cálice de Cristal, um néctares deliciosos, todavia pagos á custa da mentira, eu saboreio-me com o liquido que sai do meu ventre. Suor que se decanta na concha da minha mão, eliminando a minha sede.

Dessa forma, sou livre. Estendo a mão quando quero, sempre que quero e para quem quero. Enquanto estiveste com os homens que defenderam o teu país foste amada, quando estenderam a tua mão a falsos portugueses foste atraiçoada.

Para lá desta situação, ainda insistem em chamar-te molhe. Cinicamente ainda te evocam e nesse dia ninguém trabalha á custa da tua humilhação e desgraça. Dirigem-se a uma Capelinha e dizem rezar por ti.

ACREDITAS?

Foram distintos e sinuosos os nossos caminhos, tu com as luzes de luzes de néon e dois caixotes na cabeça. És tal qual uma mulher maquilhada para parecer bonita, quando todas as mulheres são bonitas. Quando todas têm encanto natural. Teria sido desnecessário tamanho barrete.

Para mim, conhecedor de muitas histórias, simbolizas a corrupção. Onde quer que o homem se encontre. Abusaram de ti.

Quem te condecorou de rainha tinha toda a razão do mundo pois Portugal á época era sem margem para dúvidas um império ao tamanho da sua origem e nascimento. Nenhuma outra mulher do mundo pode ser tão evocada no seu nome como tu.

Eu apenas tiver o nome de José o pai de todos Mas deslumbraste-te e caíste na desgraça.

Acabaste em prostituta e eu em príncipe. O Desejado!

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São José que vive no Principado Ilhéu da Pontinha